Completou-se este sábado, 30 de Março, o 39º aniversário da morte de Vicente Osvaldo Duarte, mais conhecido na cena desportiva por Vavá Duarte, nome dado ao pavilhão desportivo de Chã D'Areia.


Há nove anos Charles D’Oliveira havia traçado o perfil do ilustre homem do desporto que com a devida vénia ao autor publicamos.

A sua passagem pelo desporto cabo-verdiano acabou por ser curta. Chegou de Moçambique, onde fez tropa e constituiu família além de ter iniciado uma promissora carreira nos Caminhos de Ferro. Estávamos em 1976 quando entrou nas nossas vidas, leccionando no Liceu Domingos Ramos, na qualidade de professor de Ed Física, pois ele era Instrutor daquela disciplina, formado no antigo INEF em Lisboa. Faleceu a 30 de Março de 1980, em Portugal, sem completar os 35 anos de vida, uma repentina complicação hepática, não lhe deu oportunidade de se defender.

Cabo Verde atravessava um período de muita carência de quadros. Praticamente não os havia na Educação Física logo a seguir à independência, com excepção à ilha de S. Vicente. Na Praia surgiram um pouco mais tarde os primeiros profissionais na área, eram a Margarete C. Marques, Fernanda Carvalho, Adélcia Pires, Vavá Duarte e a própria esposa, Lena. Todos, em conjunto, fizeram um óptimo trabalho num liceu que já deveria ter mais de 1000 alunos.

Vicente Osvaldo Martins Duarte de seu nome completo, era conhecido entre os amigos de infância e colegas do Seminário S. José por Vavá Oraçon ou simplesmente "Oraçon". Descobri que tal alcunha foi-lhe posto devido aos dotes de solista no grupo de canto daquela instituição católica para onde entrou em 1957.

De espírito inquieto e enérgico, não se quedou pelas aulas no Liceu, leccionava ainda no Magistério Primário onde eram formados os professores de então, organizava actividades a nível dos Pioneiros A. Djassi e colaborava com a JAAC. Outra característica fundamental para o sucesso dos seus empreendimentos, era a sua capacidade de conquistar adeptos à causa desportiva. É assim que conseguiu movimentar praticamente todos os alunos do Liceu e do Magistério com a colaboração de um punhado de voluntários.

Não parava. Sempre de fato treino vestido, por vezes coberto de poeira, estava ora a bater às portas do Ministério, ora a solicitar transporte aos militares, escolta à policía ou a pedir alimentos para organização de eventos desportivos à escala de Santiago. Nos feriados nacionais conseguia provocar a realização de actividades demonstrativas nas escolas preparatórias que começaram a despontar na Praia, isso quando não havia uma actividade central no Estádio da Várzea ou outro sítio qualquer. Todas as manhãs e à tardinha lá ia ele treinar com o seu grupo de jovens corredores, pouco tempo depois eram os únicos vencedores das provas de estrada e de corta-mato. Alguns deles representavam Cabo Verde em certames internacionais (normalmente S. Silvestre) com bons resultados. José Maria e Afonso Semedo, Nelson, Elias Fernandes e Zé Lata Leti são alguns dos nomes que ainda recordo.

Foi ainda entusiasta da pesca desportiva (à linha), praticando-o sempre que o trabalho e o compromisso com a organização do desporto o permitia. Tudo sem descurar da família, da qual tinha o maior respeito e dedicação. Era casado e tinha quatro filhos.

Apesar de ter estado um tempo relativamente curto entre nós, foi o suficiente para lançar algumas sementes e reavivar outras como é o caso do Andebol, Atletismo, Ginástica, e possivelmente mais. Influenciou a ida de vários jovens para cursos de Educação Física no estrangeiro (Cuba e URSS), muitos deles revelaram ser profissionais de qualidade e alguns exerceram ou exercem ainda cargos importantes na hierarquia do Desporto Nacional e não só.

Hoje, trinta anos após a sua morte, um grupo de antigos alunos, amigos, ex-atletas e familiares decidiu homenagear esse gigante do Desporto Cabo-Verdiano. Algumas vezes incompreendido e até injustiçado pela cúpula governativa, outras vezes acarinhado pelos mandantes perante os seus irrepreensíveis projectos, mas sempre determinado e imparável na implementação de um Desporto consolidado nas normas técnicas. Pormenor enriquecido e viabilizado com o seu carácter, a sua visão e capacidade de trabalho.

Caro professor e amigo, prometemos, jamais serás esquecido.
Emanuel C. D'Oliveira