Joseph “Joe” Pina tornou-se, no passado domingo, o primeiro cabo-verdiano a ser inserido na mais prestigiada parede da fama das Artes Marciais, a «World Martial Arts Hall of Fame».

Um tributo mais do que justo para os mais de 40 anos de vida dedicado ao ensino das artes marciais e a moldar grandes campeões das artes marciais e da vida. Participou da guerra do Vietname e da primeira invasão do Iraque, enquanto militar dos Estados Unidos, país que o acolheu desde os 10 anos de idade. Estas são algumas das experiencias de Pina neste perfil sobre o mestre e o homem.

Esta é a terceira vez que Pina é inserido num hall of fame, sendo este, entretanto, o mais prestigiado de todos, porque a nível mundial, ainda mais que abrange todos os estilos, daí que se trata de um orgulho, “uma grande conquista” e que vem reconhecer todo o enorme contributo que tem dado às artes marciais.

Especialistas em vários estilos é, sobretudo, no Taekwondo, em que possui o cinturão preto, 9º Dan, que é o expoente máximo para um mestre, e no Karaté que Joseph de Pina tem evidenciado todo o seu talento.

Ao longo dos 40 anos como mestre já ajudou a formar vários campeões do mundo nas artes marciais, e tem participado, enquanto treinador, em vários jogos olímpicos. Inclusive, Emanuel Bettencourt, um dos grandes campeões das artes marciais treinou-se com de Pina, e também Pedro Xavier, outro campeão mundial e que foi aluno de Joe Pina, assim como o atual deputado cabo-verdiano Alberto Montrond.

Mas de todos os títulos e reconhecimentos, o que mais orgulha o mestre Joe Pina são as centenas de homens e mulheres que ajudou a “serem campeões na vida”.

Em entrevista exclusiva à DGD, “ Pina enfatiza que “o ensinamento mais importante que tento incutir nos meus alunos é de que o seu sucesso depende deles e só deles. Digo-lhes que para terem sucesso não podem esperar que os outros façam por eles e que é importante terem ambição e atitude de vencer”.

E nem toda a humildade que o carateriza, e que é nato a quase todas as pessoas de sucesso, esconde aquela “pontinha” de orgulho em dizer que vários cabo-verdianos e americanos que passaram por suas mãos, são hoje cidadãos respeitáveis e de sucesso em várias áreas. Desde as artes marciais, ao cinema, à política onde cita o nome de Barros, atual candidato a “Mayor” (presidente da Câmara) da cidade de Boston.

Desporto, uma escola de cidadania

O desporto em geral, sobretudo as artes marciais, defende o entrevistado, é uma grande escola de cidadania e de virtudes, daí o seu empenho em contribuir para a massificação do Taekwondo por todas as ilhas de Cabo Verde.

“Este é o meu sonho, abrir escolas por todas as ilhas”, sublinha. É nessa ótica que Joe Pina está em Cabo Verde para ministrar uma formação de duas semanas, na cidade da Praia para formadores de Taekwondo de vários pontos do país, um projeto do Comité Olímpico Cabo-verdiano e financiado pelo Comité Olímpico internacional.

Pina acredita que a massificação das artes marciais serviria para construir uma sociedade mais pacífica e próspera, prevenindo a indução das crianças e jovens para o mundo da criminalidade.

Tem sido, mesmo dos Estados Unidos, um dos grandes dinamizadores do Taekwondo em Cabo Verde, sendo, inclusive, o treinador da equipa olímpica cabo-verdiana da modalidade.

Entre os alunos atuais do nosso entrevistado destacam-se Maria “Zezinha” Andrade que, com pouco mais de dois anos de treino às mãos de Pina conseguiu participar, com relativo sucesso, nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro 2016, onde bateu-se, e bem, apesar da derrota, com a número 2 mundial na altura, e que viria, inclusive, a conquistar a medalha olímpica no torneio.

Joe mostra-se impressionado com o talento, que reconheceu desde que a viu em São Vicente, e evolução de Zezinha que, recentemente conquistou a medalha de bronze no meeting de Portland. Zezinha só perdeu uma luta, por apenas um ponto, no meeting contra a número quatro mundial.

Para além de Zezinha, destacam-se ainda Sofia Reis e Ariana dos Santos, duas jovens com enorme potencial e que começam a traçar um caminho muito interessante rumo aos próximos Jogos Olímpicos.

Ariana, assim como Zezinha, foi daqui de Cabo Verde onde praticava Karaté e, em apenas um ano com o mestre Pina tem estado a dar muito boa conta de si.

As eleições nos EUA
Sobre as ultimas eleições nos EUA, enquanto cidadão americano, pedimos que Joe Pina comentasse a vitória de Donald Trump.

A resposta foi…curiosa… “Tudo é possível nos EUA…”, diz com um sorriso na cara. Este recorda, com humor, algumas formações em que participou com o agora Presidente dos EUA, em que entre os vários ensinamentos sobre negócios, Trump ensinava “como pagar o menos imposto possível”.

“Rio-me quando agora as pessoas vem falar sobre a questão de ele não pagar impostos. Eu já o vi e ouvi dizer, da sua boca, que quem paga impostos nos EUA é burro! Lembro-me de ele perguntar quem paga impostos aqui? E quando todo mundo levantou as mãos ele disse vocês são burros! Vocês nunca vão ser milionários assim”, ri De Pina.

Contudo, mostra-se pouco preocupado com o que se diz sobre o recém-eleito Presidente, pois que, como dissera antes, “o nosso sucesso somos nós que fazemos. Não podemos esperar que outros façam por nós”.

As lições de uma guerra

Apaixonado pelas artes marciais e um aventureiro, assim podemos descrever este cabo-verdiano que terá sido um dos poucos, senão o único cabo-verdiano a participar da guerra no Vietname pelo exercito norte-americano.

Foram nove longos meses, recorda o mestre Pina, já nos finais da guerra e que só com muita sorte saiu com vida.

O mais duro da guerra foi perder tantos amigos e ver vários outros saírem amputados por causa de uma bala ou, pior, de uma mina.

A experiencia mais traumática dessa guerra, conta Joe Pina, foi quando uma vez, numa missão qualquer, vinham ele e alguns colegas de destacamento num camião do exército, quando o veículo, inadvertidamente. passou por cima de uma mina.

“Houve uma grande explosão e voamos todos pelo alto, eu fui parar em cima duma árvore”, lembra. Foram três árduos meses de recuperação, mas que felizmente não deixou grandes mazelas.

Também, na primeira invasão do Iraque, com George Bush pai, Joe também esteve no terreno como parte do exercito norte-americano. No fim das contas ficam importantes lições, pois que as experiencias, “boas ou más sempre nos ensinam alguma coisa”, acredita.

Era uma vez um karateca que queria ser o próximo Chuck Norris

Dos vários amigos que Joe fez durante a guerra do Vietname destaca-se um irmão de Chuck Norris, a famosa estrela dos filmes de ação dos finais dos anos 70 e anos 80 e antigo campeão de artes marciais.

De Pina conta que os dois tinham um plano de, depois da guerra, rumar a Los Angeles para tentar a sua sorte em Hollywood.

Neste interregno, eis que Joe regressou primeiro a Boston e começou a ensinar artes marciais no seu bairro. Depressa percebeu que seria muito mais útil como professor de artes marciais do que como ator.

Com isso, o cinema poderá ter perdido um grande praticante de artes marciais, mas o mundo e a comunidade cabo-verdiana, em particular, nos EUA, ganhou um grande mestre e líder comunitário que inspirou e impactou positivamente tantas vidas e jovens cabo-verdianos e americanos.

Fonte: DGD