Foto: Marcos Fonseca (Xuster)

O internacional cabo-verdiano Mário Correia (Marito) reagiu á Conferência de imprensa de sexta-feira convocada Federação Cabo-verdiana de Basquetebol (FCBB) para explicar as razões da não participação da seleção nacional de Basquetebol no Afrobasket2017.


Vamos publicar, na integra, o texto do jogador que já representou Cabo Verde em todas as edições do Afrobasket em que participou (6 Afrobasket - mais de 23 jogos, mais de 290 pontos, Medalha de Bronze em 2007).

“A minha intenção ao escrever isto não é gerar polêmica e conflitos mas verdade seja dita, o que presenciámos ontem na conferência de imprensa da Federação Cabo-verdiana de Basquetebol foi uma completa falta de humildade, uma arrogância tremenda e uma grande falta de respeito para com os jogadores selecionáveis para a seleção de basquetebol.

Entendo perfeitamente que " a casa necessita de ser arrumada" e que esta nova equipa tem encontrado algumas dificuldades. Neste momento a federação encontra-se amontoada de dívidas e é preciso organizarmos para podermos dar saltos mais altos. E todos nós que fazemos parte desta família do basquete temos que ajudar.

Todos nós sabemos que ninguém da federação é paga para dar o seu contributo para o bem do nosso basquete. Os que passaram e os que estão agora fizeram e fazem este trabalho de boa vontade e por isto respeitei e respeito o trabalho de qualquer um que esteja à frente da federação. Mas lembremos que os jogadores também fazem o mesmo e merecem o mesmo respeito.

São gerações de jogadores e de pessoas anônimas que ajudaram a trilhar este caminho deste do ano de 1990.

Sim, a jornada para alcançarmos o nosso sonho ainda é relativamente longa mas já estamos no meio e não é altura para, como disse um amigo, "desconstruir", de começar do zero. Desde de 1996, altura que Cabo Verde ganhou o torneio Zona II, que Cabo Verde participa nas qualificações para o Afrobasket e independente dos resultados alcançados ao logo destes anos tem sido feito um trabalho enorme de treinadores anônimos a formar novos jogadores.

Prova disto são os nove jogadores que foram formados em Cabo Verde que participaram neste último afrobasket.

O sonho destes jogadores é representar a bandeira nacional e todos eles encontraram referências nas seleções seniores e aprenderam a amar esta modalidade.

Por tudo isto, o abdicar da seleção sénior para apostar na formação não faz sentido. Sou apologista de que temos que apostar na nova geração que está a subir.

Temos jogadores com enorme potencial nos sub-14, sub-16 e sub-18 que têm como referência o Ivan Almeida, o Walter Tavares, o Fidel Mendonça, o Koni Coronel, o Vani Delgado, o Braima Freire, o Joel Almeida, o Flavio Gomes, o Michel Mendes.

Pois, é esta lista de jogadores e muitos mais que estamos a negar um sonho.

São estes que como o selecionador nacional diz não pertencem a nenhuma seleção porque ele não convocou ninguém.

Este núcleo talentoso de jogadores vai perder a chance de brilhar na mais alta competição do Basquetebol Africano.

E sejamos sinceros, para a maioria deles o Basquetebol é o seu "ganha pão" e com esta decisão é-lhes tirado uma oportunidade de avançarem na sua vida profissional.

Portanto, quando esta nova equipa começou a liderar o destino do Basquetebol em Cabo Verde,em Junho, sabiam de antemão das dificuldades que iriam encontrar.

Não era e não é segredo para ninguém que a federação está atolada de dívidas. E, segundo eles, o apuramento para o Afrobasket 2017 estava nos planos da federação. Então porque não começar do dia zero a procura de formas de sanear as dívidas.

De repente, o Afrobasket já não é prioridade porque não há verbas. Mas no plano anual de atividades para 2017 alegam que vão realizar dois estágios e dois torneios internacionais e que há um plano de marketing para angariar fundos para custear isto tudo. E as dívidas? E o maior evento continental da modalidade?


Como um dos representantes dos jogadores selecionáveis marquei presença na conferência de imprensa e claro tinha questões legítimas dos jogadores que estes acharam prementes colocar aos membros da federação.

O seleccionador nacional disse que não responde a ninguém que não seja jornalista.

Fui mandado calar pelo membro da federação, o Carlos Morgado.

Não exijo ser tratado diferente de ninguém mas um bocadinho de respeito é o mínimo que qualquer um deve ser tratado.

Ah, é o tratamento que espera todos os jogadores que querem fazer parte da seleção por parte desta federação, mesmo se passares 20 anos a representar as cores nacionais, a sacrificar, a dar o melhor de ti e a representar a tua terra amada ao mais alto nível do Basquetebol africano. A conferência de imprensa serviu para apontar dedo à antiga federação, alienar os jogadores, antigos e atuais, e dizer que todo este caminho feito não foi digno e que temos que começar de novo. Todo o trabalho feito, a começar pelo Claude Constantine em '90, até agora!

Por último, com toda humildade, um concelho ao novo selecionador. Quando diz que tem um "fio de jogo que há muito pensei para a seleção nacional", lembre-se que o Basquetebol é uma modalidade dinâmica e está a evolver-se ano após ano. Os grandes treinadores adaptam-se a esta dinâmica e ajustam a sua filosofia de acordo com os jogadores que têm.

Sim ainda não há uma convocatória, mas há um núcleo de jogadores a jogarem ao mais alto nível que são selecionáveis e que esperam que o novo selecionador seja capaz de os liderar neste caminho à procura deste sonho nosso.

Portanto, seja humilde e lembre-se que é a primeira vez na sua carreira que vai estar à frente de uma seleção nacional que já é respeitada a nível africano, prova disto é o espanto de antigos colegas de profissão, de jornalistas e de toda a comunidade do Basquetebol africano, da não participação de Cabo Verde.

Aos meus irmãos e antigos colegas da seleção nacional, como disse o tal herói nosso, a luta continua. O sonho é comum e vamos chegar lá um dia. Força!