Ao mesmo tempo em que mais de 50 mil pessoas se aglomeraram durante horas – órgãos de comunicação social locais falam numa fila com mais de 500 metros de extensão – para verem a chama olímpica que, no sábado, esteve em exposição na estação de Sendai, em Miyagi, no norte do Japão – surgem as primeiras notícias de que os Jogos Olímpicos de 2020 poderão ser adiados.


ndiferentes às recomendações para que seja cumprido algum distanciamento social, os japoneses, com as inevitáveis máquinas fotográficas ou telemóveis nas mãos mas também com máscaras nos rostos devido à pandemia de covid-19, acotovelam-se para tirarem uma fotografia junto do símbolo olímpico, que chegou há apenas três dias ao seu país, vindo de Olímpia, na Grécia, e que vai percorrer 47 regiões do Japão.

Aparentemente, tudo continua na sua normalidade para que, no dia 24 de Julho, no novo Estádio Nacional de Tóquio, recinto que já foi inaugurado no dia 15 de Dezembro do ano passado e que se estima que tenha custado aos cofres nipónicos 1,3 mil milhões de euros, se inicie aquela que é a maior e mais importante competição desportiva mundial. Mas nos bastidores a realidade é outra.

Este ano, em 2021 ou 2022
Neste domingo, pela primeira vez, depois de inúmeras declarações em que se garantia a realização dos Jogos Olímpicos nas datas previstas, o Comité Olímpico Internacional (COI) reconheceu que vai trabalhar em cenários que impliquem o adiamento do início da prova, mantendo, contudo, que um cancelamento puro e simples, não está em cima da mesa.

Para já ainda se sabe pouco em relação aos cenários concretos relacionados com o adiamento. A agência noticiosa Reuters citava neste domingo duas fontes ligadas à organização da prova, segundo as quais estavam a ser preparados “planos alternativos – planos B, C e D –, considerando diferentes intervalos de adiamento”.

Já uma segunda fonte, também identificada como sendo um elemento próximo do comité organizador dos Jogos de Tóquio 2020, confirmou que o adiamento estava a ser discutido, podendo mesmo ser de um ou dois anos, embora, de acordo com este mesmo elemento, vários responsáveis da organização ainda tinham a esperança de que ele fosse apenas de um mês ou 45 dias.

Outras fontes ainda, estas citadas pelo jornal espanhol El País, avançam que a data alternativa preferida pelo COI e pelo comité organizador seriam os meses de Setembro e Outubro, idêntica àquela em que se realizaram os Jogos de 1964, a ocasião anterior em que a competição se disputou em Tóquio.

O problema é que esses meses são de chuva no arquipélago japonês, para além de que são também as datas escolhidas por outras grandes competições internacionais para retomar as suas provas. E, claro, não é também certo que a pandemia de covid-19 já esteja controlada nessa altura.

Adiar os Jogos para Julho de 2021 é outra hipótese, mas este cenário tem como dificuldade o facto de ser nos anos ímpares que se disputam os campeonatos do mundo de modalidades como o atletismo, a natação e a ginástica, três dos principais desportos olímpicos.

Um terceiro cenário possível é o de realizar os Jogos em 2022, tirando partido do facto de o Mundial de futebol se disputar em Dezembro, no Qatar, e os Jogos Olímpicos de Inverno serem em Janeiro.

Uma coisa é certa. Uma decisão sobre o assunto terá de ser tomada pelo COI, que se colocou a si mesmo um prazo de um mês para chegar a uma conclusão definitiva, ainda que o Governo japonês tenha, certamente, uma palavra a dizer.

Prejuízos astronómicos
Os Jogos Olímpicos são ainda a única grande competição desportiva mundial que não foi adiada, apesar de inúmeros apelos, tanto de atletas a nível individual, como de organizações desportivas tão importantes como a federação americana de atletismo e natação ou diversos comités olímpicos nacionais.

Na maior parte dos casos, o argumento avançado para aqueles que defendem o adiamento do evento tem a ver com o facto de, neste momento, já não ser possível aos cerca de 11.000 atletas de 206 países que eram aguardados em Tóquio treinarem-se de forma adequada e qualificarem-se de forma justa devido à pandemia de covid-19, que fechou instalações desportivas um pouco por todo o lado e obrigou os atletas a uma clausura forçada e as federações a adiarem provas de apuramento olímpico. Isto para além dos riscos de saúde que correriam no caso de os Jogos avançarem no cenário actual.

Thomas Bach, presidente do COI, tem reagido ao clamor global para que seja decidido o adiamento da competição dizendo que “adiar uns Jogos Olímpicos não é como adiar um jogo de futebol de um sábado para outro”. Uma declaração que tem por base as dificuldades em encontrar um calendário que seja aceite pelas 33 modalidades desportivas representadas nos Jogos e também no risco de avultadas perdas financeiras que a decisão poderá originar.

Se for avante, o COI terá que, desde logo, renegociar com as cadeias televisivas que pagaram 2700 milhões de euros pelos direitos de transmissão dos Jogos, para além de com todos os grandes patrocinadores do evento. E depois é preciso garantir que os 800 milhões de euros de receitas de bilheteira não se perderão.

Independentemente dos custos financeiros, no caso de os Jogos de Tóquio serem adiados entrarão para a história como os primeiros a sê-lo nos 124 anos de história dos Jogos modernos, que apenas em três ocasiões (1916, 1940 e 1944) não se realizaram devido às I e II Guerras Mundiais.
Lusa