A questão da Igualdade de Género tem sido transversal nas várias áreas sociais do mundo. Cabo Verde atravessa um momento em que cada vez mais se enaltece a reivindicação da participação feminina nos diversos setores, principalmente nos cargos de liderança.


No desporto a situação não é diferente, tendo atualmente apenas uma mulher a liderar uma Federação Nacional, e em termos de prática desportiva e a sua projeção, a disparidade tem sido cada vez mais contestada.
Em conversa com a única presidente de uma Federação desportiva no país, Lizandra Varela, da Ginástica, soubemos da percepção sobre a participação feminina no desporto.
Lizandra diz que “é um pouco difícil, sendo que culturalmente têm-se uma visão masculinizada do papel da “liderança” levando a um preconceito sobre a eficácia no desempenho de nós as mulheres. É um universo grandemente machista, que normalmente os cargos de presidentes em particular, nas Federações no nosso país, são sempre ocupados pelos Homens”.
Para a presidente Isso ainda aumenta a responsabilidade de ter que mostrar a sua capacidade de concorrer em pé de igualdade com os colegas presidentes – homens das Federações e em simultaneamente conciliar a sua carreira profissional / família com a gestão da Federação Cabo-verdiana de Ginástica.
“Pelo facto das expectativas estereotipadas de nós como mulheres e as expectativas estereotipadas de nós como mulheres-dirigentes serem ainda maiores, pois uma mulher que é vista como muito feminina é avaliada como não percebendo nada de desporto, sendo a feminilidade é associada a “incompetência”, torna a minha lutar ainda mais do que dos meus colegas dirigentes – homens para atingir os mesmos patamares”, afiança Lizandra Varela.
No entanto, fala que o acolhimento por parte dos outros presidente homens é bom, mas ainda sim sente alguma reserva por ser mulher, prendendo se muito à barreira cultural, o que para ela traduz se em dificuldades, mas que também a tornam mais forte.
De realçar que a Ginástica em Cabo Verde, na maior parte do tempo, desde a sua fundação foi liderada por mulheres, pensando-se de alguma forma na feminização da referida modalidade, pois além da liderança a maioria das atletas são mulheres.
Na ótica de Lizandra o que falta para uma maior integração da mulher nos cargos de liderança desportiva, é “implementar medidas, acções e políticas que permitam a integração do género, tendo em conta que efectivamente não se nota nas organizações desportivas. De uma forma ainda mais relevante, como dirigentes, presidentes ou em qualquer outro cargo de direcção”.
“Precisamos educar as mulheres para a liderança e também usar a estrutura da organização desportiva para a integração do género, que é ainda pouco questionada, existindo até agora uma forte rede masculina que acaba por monopolizar”, diz Lizandra Varela.
Além disso aponta que “carecemos de uma estrutura organizacional desportiva mais flexível, por esta ser de caráter voluntário no nosso país por exemplo, e que por sua vez exige um grande investimento de tempo e energia de forma a equilibrar a vida profissional e a familiar, tornando assim possível a integração de mais mulheres nos cargos de liderança”.
“Se as mulheres não persistirem, não partilharem experiências umas com outras o cenário não mudará, o que não vai possibilitar uma profunda transformação organizacional e social. Enquanto não existirem mais mulheres a dirigir e a decidir, não existirá igualdade de oportunidades para mulheres e raparigas no desporto e nos cargos de liderança desportiva. “As mulheres têm que lutar”. reitera.
Ao ver de Lizandra a participação feminina no desporto em geral é desigual, os obstáculos e os desafios para o sexo feminino são ainda muitas vezes uma realidade difícil de se desbravar.
“São várias as dificuldades que as tentam desviar do sonho/objectivo: A desigualdade nas oportunidades, os apoios, o salário, o assédio moral e sexual, a diferença nos prémios monetários, entre outros. A participação feminina, portanto, já parece ter alcançado um bom percentual, mas isso ainda não é suficiente para pensarmos em igualdade de género. Mas há progressos, por isso, o direito à igualdade de oportunidades tem sido uma das principais lutas do género”, acrescenta esperançosa de uma mudança no paradigma atual.
A Presidente da Federação Nacional de Ginástica Lizandra Varela está a dirigir a organização desportiva desde 2013.
COC