O grau de coesão de uma equipa de futebol, sobretudo quando se trata de amadorismo, aumenta com a compreensão por parte de todos os seus membros directivos, das tarefas e responsabilidades que lhes competem no colectivo, devendo estes perceber que a equipa/grupo está sempre em primeiro lugar e é sempre mais importante que o individuo.


Infelizmente a maioria dos clubes e quase todas outras entidades desportivas em Cabo Verde são dirigidas paradoxalmente pelos seus presidentes, que fazem e desfazem o que lhes infelizmente passar pela mentalidade. A maioria deles não presta contas ao Conselho Fiscal e Disciplinar e nem tão pouco à Assembleia Geral do clube. Fazem contratos sem critérios, recebem patrocínios, donativos e quotas da parte dos associados que não são controlados pelos órgãos sociais do clube. As Assembleias Gerais para o efeito em muitos clubes não funcionam. No caso do Clube Desportivo Travadores há vinte e tal anos que as contas não são aprovadas, enfim tudo se encontra numa banca rota. Das três últimas Direcções, a primeira apresentou contas à segunda que não as aprovou, sendo as restantes, incluída a Comissão de Gestão, que ilegalmente está à frente dos destinos do clube, não prestam contas. Que calamidade!

Quando uma Direcção não presta contas, argumenta que a anterior não prestou, e isso constitui o motivo de não prestar as contas. Acontecem situações graves e incorrigíveis. O Clube Desportivo Travadores possui um Estatuto de Entidade Pública que muitos outros clubes não possuem. Portanto quem faz gestão danosa neste clube, pode sofrer consequências penosas.

Imaginem que nos Travadores foi levantado um cheque no valor de, mais ou menos, três centenas de contos, pura e simplesmente em nome de uma pessoa. Um clube com Estatuto de entidade pública.

Uma coisa é certa: Os dirigentes desportivos têm que compreender que no Desporto, existem dois tipos de sistemas organizativos: Quando o Estado se encontra à frente de entidades desportivas, por exemplo a Direcção Geral dos Desportos ou Institutos Desportivos, a organização é pura e simplesmente governamental. Mas quando um clube, entidades como Associações, Federações, ou mesmo Confederações Desportivas caso existissem aqui, Comité Olímpico ou de natureza Para-olímpica, estas instituições são sempre geridas por órgãos sociais, isto é, a Assembleia Geral, o Conselho Fiscal e Disciplinar e a Direcção. Neste caso trata-se da organização não-governamental.

O Governo disponibiliza no Orçamento do Estado uma verba para Desporto no sentido geral, o chamado Contrato Programa, que, a nosso ver, é muito pouco, e ainda por cima a referida importância é pessimamente mal gerida e muito mal utilizada.

Nos Travadores brevemente haverá eleições. Se nessas eleições forem verificados todos esses actos criminosos, muita gente vai saber o que verdadeiramente se passa com os Travadores. Também, agradecíamos aos sócios que deixaram de pagar as quotas que as regularizassem para poderem exercer o direito de voto nas próximas Assembleias, visto os problemas a serem debatidos têm que ser discutidos colectivamente e não por meia dúzia de pessoas.

Há um ano e tal, foi eleita uma Comissão de Gestão que fazíamos parte. Verificamos todas essas anomalias, como patrocínios que entraram para o clube e que foram levantados na íntegra, sem justificações da utilização, enfim não foi apresentado nenhum documento comprovativo. Endereçamos uma exposição ao Presidente Cessante com conhecimento ao Presidente da Mesa de Assembleia Geral e não tivemos nenhuma resposta.

Posteriormente, a maior parte dos membros decidiu levar o caso à justiça, mas o Presidente, Abel Mendonça, recusou redondamente, argumentando que não veio aos Travadores para isso. Resumidamente, já há dois mandatos da parte dele em que as contas não são apresentadas à Assembleia Geral do clube e já está na terceira candidatura. Se as coisas continuem assim, perderemos a notoriedade e credibilidade e desta forma estamos a construir uma estrutura em cima de areia, conforme afirmou um amigo meu e continuando a pedir esmola para sobreviver.

O Clube Desportivo Travadores desde os tempos longínquos foi uma agremiação desportiva com grande notoriedade. O Clube teve outrora dirigentes competentes e capazes, com grande amor ao clube. Entre os quais relembro-vos os nomes de Eduardo Évora, Augusto Nha Criteria, Morgado Nhu Alfredo, Severino Barbosa, Nhu Lixo, Jacinto Barbosa Fernandes, Félix Gomes Monteiro pessoas que souberam fazer do clube uma entidade de renome na arena do futebol praiense em especial e de Cabo Verde no aspecto geral.

Por outro lado, não deixamos de mencionar atletas de grandes valores como Marino Paiva, Simplício, Homem Preta, Tocador, Té, Betinho, Avelino, João Carneiro, Tambrinha, Epifânio, João Carvalho, Joaquim de Teresa, Avelino Barbeiro, João Burgo e mais atletas como Sabino, Bernardino, Noco, Lula, Domingos, Funa e muitos outros mais. Destacou-se entre os últimos atletas o nome de Betinho Mota Gomes, a figura que na qualidade de treinador de futebol, levou o clube, pela primeira vez, a conquistar o título de campeão nacional. Também é de salientar que dois anos depois, Betinho foi mais vez campeão nacional, dando desta forma o segundo campeonato nacional à nossa torcida encarnada. Este homem carece de uma homenagem sincera da parte do clube Desportivo Travadores.

O clube Travadores não ganhou muitos títulos de futebol nacional, devido à teimosia dos seus dirigentes, pois só ganhou quatro títulos nacionais.

Actualmente existe uma gestão administrativa ilegal, funcionando apenas com duas pessoas dos sete eleitos inicialmente. O seu Presidente e mais um membro que lhe serve de suporte nas assinaturas de cheques e mais uma ou outra coisa junto da equipa de futebol. Esta comissão administrativa não pode gerir o clube nos regimes legais, desportivos, financeiros ou quaisquer outros fins. De facto, algumas pessoas estão apoiando e bem, mas não são dirigentes eleitos e, portanto, não podem fazer papel de dirigente. Conforme o Estatuto do clube pode ajudar no trabalho, mas não podem decidir nada.

A tal situação não pode continuar, porque se agora não se prestam as contas, não temos a legitimidade nem credibilidade de se relacionar com os bancos, pois legalmente as contas bancárias não deveriam ser movimentadas e nem temos a honra de pertencer ao grande clube que dispõe de um Estatuto especial.

A situação financeira actual dos Travadores resulta duma parte de aluguer da sede social que, são 200 000$00 (duzentos contos), sendo 130 000$00 (cento e trinta mil escudos) são destinados à renda bancária ao BCA, sobrando cerca de 70 000$00 (setenta mil escudos). Temos um patrocínio de 75 000$00 mensal (setenta mil escudos) e uma verba de 80 000$00 (oitenta mil escudos) da renda de mais um piso para serviços estatísticos. As receitas das quotas dos sócios são insignificantes, pois poucos sócios continuam a pagar quotas. Vem uma parte substancial de ajuda monetária que os emigrantes dos EUA enviam aos Travadores. Os subsídios dos EUA estavam dirigidos em nome duma pessoa, quando deviam ser enviados directamente para conta do clube para uma gestão mais transparente.

Um Clube como Travadores possuindo apenas 46 sócios legais, isto é, pagando quotas mensais. Vamos ter uma reunião breve para preparação das eleições, a fim de possuirmos uma Direcção de regime colegial e não presidencialista, insistindo em pessoas competentes e capazes de levar Travadores ao pódio que é o lugar deste clube, o mais popular do nosso Arquipélago.

Por último o que se torna essencialmente ridículo é que uma comissão ilegal, apenas com dois dos sete elementos eleitos, já se encontra a preparar uma nova época desportiva, contactando novos jogadores e uma nova equipa técnica, sem eleição dos corpos sociais, isto é, sem legitimidade. Nesta óptica não se pode realizar nenhum tipo de contratos, sejam eles desportivos, comerciais, etc.

Praia, 22 de Março de 2019.
Victor Lobo.