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Cabo Verde tem-se dado a conhecer, desportivamente, pelo mundo fora muito graças aos seus atletas das mais variadas modalidades.

Os seus desempenhos de alto nível em clubes e competições pelos quatro cantos do mundo, aliados às sublimes performances das suas seleções nacionais, têm contribuído de forma preponderante para que o país seja tido em conta no panorama desportivo internacional.
No futebol, mais concretamente, temos visto nos últimos anos, uma aposta forte por parte de clubes Europeus no jogador Cabo-verdiano. Não só em Portugal, mas em muitos outros países do velho continente, como Holanda, França, Espanha, entre outros. E acredito que essa aposta tem sido claramente ganha, avaliando pelas exibições dos nossos “criolos” pelo mundo e pela importância e preponderância que, na maior parte dos casos, vêm assumindo nos seus clubes. Curiosamente, alem dos jogadores seniores e já formados, Cabo Verde tem sido uma fonte de jovens promessas para as camadas jovens de muitas e boas equipas da Europa e não só. Tem-se vindo a tornar cada vez mais usual vermos jovens Cabo-verdianos a brilhar em campeonatos de juniores, por exemplo. Alguns, fruto de uma prospeção ativa desses clubes em Cabo Verde, outros filhos da diáspora. Isso me leva a acreditar que o jogador Cabo-verdiano tem talento, tem dom e tem condições para se afirmar nas melhores equipas dos melhores campeonatos! Está no sangue, na raça, ou até na cultura e nas próprias condições desportivo-económicas do País, quem sabe? E digo isto porque, julgo ser unânime, a maior escola de futebol vem das ruas, do futebol de rua. E penso que o futebol de rua está enraizado na cultura e na tradição do povo Cabo-verdiano, e vem passando de geração em geração, de zona a zona, ilha a ilha. Penso ser das poucas coisas que ainda podem combater a “geração playstation”. E quem nunca jogou uma pelada com os amigos na calçada, com balizas de pedras ou dos próprios chinelos? Qual desses que hoje são profissionais que nunca tiveram de parar os seus jogos de final de tarde para retirar as balizas a cada carro que passava pelo “campo”? E feliz ou infelizmente, para muitos, essa foi a única escola de futebol que tiveram, onde aprenderam a dar os primeiros chutos, o primeiro passe ou os primeiros toques na bola. E isso acontece porque apesar de vermos talentos a olho nu, não apostamos ou não sabemos apostar na formação dos nossos jogadores. Não exploramos o que de melhor temos no nosso futebol, talento puro dos nossos jovens. É claro, e ainda bem, que existem escolas de futebol espalhadas pelo País, das quais destaco a Epif, do professor Djedje, que vem desde há muitos anos fazendo um trabalho extraordinário com crianças locais e com a maior parte daqueles que hoje representam Cabo Verde a cada jogo que fazem pelos seus clubes bem como pela nossa seleção. O Batuque Fc, que tem sido outro parceiro da aposta na formação dos nossos jogadores, tem também sido excecional formando e lançando muitos jogadores para a profissionalização. E dou valor a todas as outras escolas – onde destaco a titulo de exemplo a Eiff Sal - “Escola Tchinoa” – e clubes que durante anos vêm lutando por vezes com condições mínimas e apoios escassos para o futuro das nossas crianças e do nosso futebol, mas é preciso dizer que só isso não chega. Não bastam pessoas com boa vontade para ensinar, já passamos essa fase. É preciso que as entidades competentes queiram e saibam apostar nos jovens, no futuro, no sucesso!
E quando digo apostar nos jovens não me refiro apenas a pô-los a jogar. É preciso apostar em quem os forma, nos treinadores/formadores e capacitá-los para ensinar os que amanhã farão a diferença. É preciso criar condições para que os clubes e escolas de futebol possam apoiar e trabalhar o desenvolvimento dos seus jogadores. É preciso um plano, um projeto que envolva todos os agentes desportivo do país, um projeto de colaboração para um objetivo comum. Que englobe a criação de camadas de formação por parte dos clubes ou cooperação entre estes e as escolas já existentes; incentivos para tal por parte dos municípios locais no âmbito do associativismo; criação de campeonatos regionais e nacionais sérios e regulares por parte das associações, criação de estágios de seleções jovens por parte da federação, aposta no desporto escolar, entre muitas outras iniciativas que se devem tomar para o desenvolvimento do futebol e do desporto cabo-verdiano.
É esse, a meu ver, o passo que nos falta para darmos o salto definitivo como uma das maiores potências futebolísticas em Africa.
E numa altura que se afinam os preparativos para a 2ª participação de sempre da Seleção Nacional no Campeonato de África das Nações, chamo atenção para dois dos últimos ”Tubarões” a despontarem na seleção e que têm vindo a maravilhar os adeptos com as suas boas exibições: Falo de Kuca, atacante que só esta época chegou à 1ª liga Portuguesa depois de alguns anos pelos escalões secundários mas cedo se afirmou como um dos jogadores mais preponderantes do Estoril, revelando uma enorme veia goleadora e deixando claro que chega tarde ao primeiro escalão do futebol Português. Nuno Rocha, que no ano passado foi lançado na equipa principal do Marítimo e pegou de estaca, transferiu-se no início da época para a Roménia para a Universitatea Craiova, e, embora eu ache que tenha sido um passo atrás, tem merecido a confiança do selecionador e tem feito excelentes exibições no centro do terreno.
E isso prova que, apesar de não se apostar fortemente na formação, o jogador Cabo-verdiano tem um talento que o poderá levar para um nível muito superior àquele que, tendo em conta o nosso campeonato e os exemplos recentes, se pode imaginar. Que essa aposta seja uma realidade num futuro próximo e que os clubes continuem cada vez mais a apostar nos jogadores “criolos”. Cabo Verde é que sai a ganhar com isso.

Joel Dos Santos,
Brockton, 02 de Janeiro de 2015