A eleição de Victor Osório para presidente da Federação Cabo-Verdiana de Futebol provocou um retrocesso no trabalho feito por Mário Semedo, desestabilizou a coesão entre os jogadores, a equipa técnica e a direcção da FCF e enfraqueceu o desempenho dos “Tubarões-Azuis”, segundo Rui Águas, ex-treinador da Selecção de Cabo Verde.

Para o técnico português, a crise instalada no seio dos “Tubarões-Azúis”, cuja qualificação para a CAN está neste momento em causa depois de duas derrotas consecutivas com Marrocos, tem por trás um rosto e um nome: Victor Osório, actual presidente da FCF.

“Quando se chega a um sítio novo, é preciso saber aproveitar a experiência de quem está lá e dar seguimento ao que de bom foi feito. Para mim, faltou humildade às pessoas que assumiram a direcção da FCF, que tentaram impor o seu estilo de gestão com arrogância e isso teve efeitos indesejados”, critica Rui Águas. A explicação da crise chega cinco meses depois que o técnico deixou o comando dos “Tubarões-Azuis” devido a atrasos no pagamento do seu salário e, sabe-se agora, por causa também de atritos com o presidente da FCF. É que, conforme Águas, Osório, assim que assumiu a gestão da federação de futebol, cometeu o erro de tentar imiscuir-se nas competências da equipa técnica, coisa que o seu antecessor nunca fez.

“Vamos a um caso prático e ilustrativo: o actual presidente da FCF chegou a sugerir-me o nome de quatro jogadores para a selecção na primeira convocatória que fiz logo após a sua eleição. Fiquei desencantado com essa postura, por razões óbvias. Enquanto seleccionador, eu é que sei quem devo ou não chamar para a equipa”, conta Rui Águas, que recusou esse pedido do presidente. “Expliquei a Osório que não iria fazer aquilo que me pediu e por que razão”, revela. O nosso entrevistado, que acabaria por sair da equipa técnica em Janeiro deste ano, supostamente devido a atrasos no pagamento do seu salário, afinal tinha não apenas esse motivo, mas, pelo que agora se sabe, também outros motivos.

Segundo Águas, os problemas causados por Osório tiveram reflexos negativos no seio dos jogadores e só não tiveram impactos mais graves porque sempre houve uma “forte coesão” entre os atletas e a equipa técnica. Além disso, acrescenta, falou mais alto o sentido de dever dos jogadores para com os adeptos e a imagem do futebol cabo-verdiano. O certo, diz o nosso entrevistado, é que Osório não causou um bom impacto nos atletas, como o próprio pôde constatar quando tentou fazer manobras para corrigir as coisas. Só que essas investidas, acrescenta, tiveram efeitos contrários e não os esperados pelo presidente da FCF.

“Depois de sair da selecção, fiquei a saber que Osório chegou a contactar um dos capitães da selecção e disse-lhe que ele, o jogador, só tinha voltado à lista de convocados por ele (Osório) ter exigido isso à minha equipa técnica”, prossegue Rui Águas, referindo-se indirectamente ao caso do capitão Marco Soares, que reintegrou o plantel que defrontou a Líbia em jogo a contar para a “CAN-2017”, depois de ficar excluído da lista dos convocados de Águas para a copa africana de 2015. Segundo Águas, Osório deu mais um tiro no próprio pé com mais essa estratégia. Garante que os jogadores ficaram a saber disso e que não gostaram, o que terá piorado ainda mais a credibilidade do dirigente nos bastidores da selecção.

“Tínhamos uma relação tão estreita entre nós que ocorrências bizarras como essas seriam naturalmente comentadas entre nós. São exemplos de coisas que um verdadeiro dirigente desportivo não deve fazer”, comenta o ex-treinador dos “Tubarões-Azuis”, para quem Victor Osório não terá um reinado muito feliz e duradoiro no futebol cabo-verdiano se não mudar o seu comportamento. Para ele, aliás, está fora de questão reassumir a selecção cabo-verdiana, enquanto Osório for presidente da FCF.

Este comentário não deixa margem para dúvidas sobre o nível de crispação instalada entre o treinador luso e o jurista cabo-verdiano. Rixa essa que, como se pode depreender das palavras de Rui Águas, acabou por ter impacto na resolução dos salários pendentes e que aceleraram a sua saída intempestiva da selecção. Segundo Águas, o processo ficou totalmente resolvido no início de Maio, mas graças ao envolvimento do anterior Governo de Cabo Verde, nas pessoas da ex-ministra Fernanda Marques e do director-geral dos Desportos Gerson Melo, e da Federação Portuguesa de Futebol.

A FCF, avança Águas, não teve nenhuma intervenção nesse processo nem tão-pouco mostrou vontade em juntar-se a quem queria resolver o contencioso. “A Federação Cabo-Verdiana ficou à parte, tão à parte que negou passar-me um simples recibo para confirmar os meses de trabalho que prestei à selecção, para fins administrativos e contabilísticos. A FCF alegou que estava envolvida nos preparativos para o jogo Cabo Verde-Marrocos e que só depois é que teria disponibilidade de tempo”, informa Águas, que confirma, entretanto, ter havido um compromisso verbal da Federação Portuguesa de Futebol para o pagamento do seu vencimento. Como diz, essa parceria não foi assumida por escrito, mas existiu. Tanto assim que a FPF veio agora regularizar a sua situação salarial, quase cinco meses após deixar o cargo de treinador dos “Tubarões-Azuis”.

Desde que entregou o comando da selecção de Cabo Verde que Rui Águas não tem treinado nenhuma equipa. Adianta que recebeu convites, mas nenhum deles foi concretizado. Neste momento encontra-se na Turquia a acompanhar o trabalho do técnico português José Morais, no clube Antalya Sport, de onde concedeu esta entrevista ao Lance. Uma conversa, como diz, para esclarecer o ocorrido e encerrar de vez essa polémica questão. Resta, no entanto, saber qual será a resposta de Victor Osório a este rosário de críticas, pelo que o suplemento desportivo Lance promete ouvir o presidente da FCF na próxima edição.
Fonte: asemana