O ex-presidente da FCF, Mário Semedo, decidiu romper o silêncio a que se remeteu, desde que deixou o comando da Federação Cabo-verdiana de Futebol, dando tempo ao seu sucessor para se afirmar no lugar.

Mais cedo do que esperava inicialmente, o antigo patrão do futebol cabo-verdiano viu-se, também, confrontado com a crise dos salários de Rui Águas. Mas, cansado de levar com “subentendidos”, resolveu abrir o jogo através do ANAÇÃO.

E, nesta reaparição, começa por explicar todo o processo que levou à escolha de Rui Águas para o cargo de seleccionador nacional de futebol e dos meandros da parceria com a Federação Portuguesa de Futebol (FPF), para suportar os salários do treinador português.

Semedo revela que, com a saída de Lúcio Antunes, que foi um treinador “marcante” na história do futebol cabo-verdiano, “seria importante” escolher um técnico com “perfil adequado”, que desse garantias de continuidade do trabalho que vinha sendo realizado com os Tubarões Azuis, que vinham de uma fase final da CAN, onde tinham alcançado os quartos de final.

“Na procura de soluções, entendemos que a cooperação seria uma das formas para encontrarmos esse treinador”, explica Semedo, afirmando que, definido o perfil, vários candidatos se posicionaram enviando para a FCF os respectivos currículos.
Entretanto, nisso, segundo Semedo, a FCF foi convidada pela congénere portuguesa para uma reunião em Lisboa, juntamente com as federações de Angola, Moçambique, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe, na perspectiva de uma cooperação entre a UEFA, Portugal e os PALOP.

“Como se sabe, a UEFA tem um programa de cooperação denominado ‘Meridien’, que já beneficiou Cabo Verde em vários aspectos, todos eles muito importantes. Por isso, aproveitamos essa oportunidade, para solicitar um encontro, no mês de Maio de 2014, com a direcção da FPF. Na reunião de Maio, ficou claro que a UEFA estaria disponível a apoiar as federações dos PALOP, via uma federação europeia, que, tendo em conta os laços existentes, obviamente seria Portugal”, frisou.

Na mesma reunião, segundo o antigo responsável da FCF, Portugal manifestou todo o apoio necessário no sentido de contribuir para o desenvolvimento do futebol nesses países.

“Reunimos com a direção da FPF onde abordámos, concretamente, a questão do selecionador nacional e lhes foi informado que, na possibilidade de uma parceria, a escolha recaía em Rui Águas, não só pelo perfil que ele tem, mas, sobretudo, pela relação sentimental que tem com Cabo Verde, tendo em conta que a esposa é cabo-verdiana”, explica.

Qualificação CAN 2015

Na altura, em Maio de 2014, Mário Semedo diz que a direcção da FPF prometeu analisar a questão para que, mais tarde, se retomasse os contactos no sentido da efectivação dessa parceria. “Aproximava-se a data do arranque das eliminatórias para a CAN 2015 e era preciso ter uma decisão quanto antes sobre o novo selecionador”, frisa Semedo afirmando que, mesmo ainda sem uma decisão da FPF, “fomos falando com Rui Águas, que já estava a fazer o seu trabalho de casa, mas sem qualquer compromisso”.

Mas, tendo em conta que 2014 foi o ano da Copa do Mundo no Brasil, que contou com a presença de Portugal, durante alguns meses, segundo Semedo, não foi possível estabelecer contactos com a direção da FPF, que estava empenhada na participação da seleção lusa nessa competição.

“Depois da eliminação prematura de Portugal na Copa do Mundo, demos algum tempo, para que os responsáveis portugueses pudessem digerir esse desaire, e, no mês de Julho, retomámos o contacto com a realização de três reuniões, sempre com a presença de Rui Águas”, sublinha Semedo, realçando que ficou acordado que Portugal iria avançar através do tal programa da UEFA”.

Entretanto, tendo em conta que já se estava particamente em cima da data para o arranque da fase de qualificação decidiu-se avançar com a parceria, mesmo antes de um pronunciamento da UEFA.

“Sempre com a presença de Rui Águas, a FPF deu o seu aval e avançámos e ficámos à espera da formalização desse protocolo, cujo primeiro draft nos foi enviado em Agosto ou Setembro”, frisa o nosso entrevistado, dando conta que o acordo era “abrangente”, dado que abarcava também questões ligadas à organização, à formação e o acesso ao programa informático de scouting da FPF.

“Reagimos ao draft, tendo em conta que algumas coisas, que já tinham sido assumidas, não estavam contemplada nesse projecto de protocolo. Mas com a entrada na fase de quilificação para o CAN, que foi muito intensa, não tivemos muito tempo para debruçar sobre o assunto, mas o importante é que as coisas sempre andaram”, salienta.

Cooperação
Mário Semedo diz ainda que a direcção da FCF sempre falou com Rui Águas sobre a questão do contrato, que “era a nossa preocupação”, mas, numa base de “boa-fé e confiança recíproca, trabalhámos sempre e sem qualquer problema. Havia um ou outro problema no pagamento do salário, mas a FCF fez sempre um esforço no sentido de pagar a remuneração do selecionador”.

“Na cooperação não se deve forçar a barra, temos que ser pacientes, temos que saber lidar com as questões com uma certa diplomacia para que as coisas possam funcionar sem sobressaltos”, sugere o ex-presidente da FCF, lembrando que a cooperação entre as federações de Cabo Verde e Portugal “não deve ser vista apenas na perspectiva dessas duas instituições, mas sim enquadrada na cooperação existente entre os dois países”.

Isto é, advoga, “temos que estar gratos a Portugal no domínio desportivo e do futebol mais concretamente, tendo em conta que os Tubarões Azuis beneficiaram, em grande parte, com a formação dos nossos jogadores que evoluem nas diversas competições do futebol português e também com as infraestruturas e outros apoios que nos concedem para a preparação da nossa selecção”.

Para Semedo, nesses casos, “é preciso ter paciência”, tendo em conta certos problemas que a própria FPF ia enfrentando. “Mas os problemas iam sendo ultrapassados dia a dia”, esclarece o ex-presidente da FCF.

“Depois recebemos da federação portuguesa e da própria UEFA o contacto para a viabilização desse tal protocolo e nós enviámos toda a documentação solicitada, aliás, há dias ouvi a entrevista do presidente da FPF, Fernando Gomes, a dizer que a questão está a andar”.

“Como se sabe, o futebol viveu, nos últimos tempos, uma turbulência a nível da FIFA e da UEFA e as coisas talvez não tivessem corrido da forma que desejaríamos”, lamenta.

Questão salarial
Preocupado com a questão salarial de Rui Águas, “por tudo que ele fez e pelos sacrifícios que consentiu”, Semedo diz que seria justo dar-lhe alguma tranquilidade... “Daí que antes ainda da nossa saída da direcção da FCF, estava em andamento o contrato com o seleccionador, que não foi avante por causa dessa hesitação em relação à cooperação entre Portugal e a UEFA”.

“A UEFA, através da FPF, assegurava o salário do seleccionador, mas a parte cabo-verdiana assumia alguns custos, nomeadamente a renda de casa, porque Rui Águas não vinha só na qualidade de treinador. Tinha um projecto muito mais amplo da formação e da coordenação das seleções”, esclarece o nosso entrevistado.

Este explica ainda que, na altura da passagem de dossiês à nova direcção da FCF, no dia 21 de Abril, “eu disse claramente ao actual presidente: ‘Temos este dossiê, as coisas estão como estão por razões tais, mas é necessário ter algum cuidado na sua gestão, tendo em conta que se trata de um processo de cooperação e, muitas vezes, as coisas não correm como desejamos, não só em termos de conteúdo, mas também de velocidade’”.

“Inclusivamente”, acrescenta, “no projecto do contrato com Rui Águas, salvaguardamos uma cláusula de rescisão, tendo em conta as eleições na FCF, por entender que não deveríamos impor uma equipa técnica à nova direcção. A informação que obtivemos é que as coisas se iam resolver o mais rapidamente possível, em termos de formalização do contrato”.

Grato a Rui Águas
Em relação a este processo, Mário Semedo diz-se agradecido por tudo o que Rui Águas fez para o futebol cabo-verdiano e deixa, também, uma palavra de apreço ao presidente da FPF, Fernando Gomes, por “todo apoio e toda a paciência que teve nesse processo relacionado com o seleccionador”, reiterando, uma vez mais, que a cooperação exige paciência e diplomacia. “Para já, não é meu feitio trazer para a praça pública coisas que, do meu ponto de vista, são íntimas da organização”.

Semedo garante que, quando deixou a presidência da FCF, grande parte dos salários estava em dia. “Uma parte era garantida pela federação portuguesa e a outra pela FCF, porque, havendo possibilidade interna, não era de bom tom deixar o selecionador sem salário, tendo em conta que os montantes pagos seriam reavidos logo que o protocolo tripartido, FCF, FPF e UEFA fosse rubricado”.


Herança de Semedo

Com 16 anos a serviço da Federação Cabo-verdiana de Futebol, Mário Semedo diz que não era a sua intenção fazer, agora, o balanço do seu desempenho nesse organismo, mas, “como tanto se fala de heranças”, faz questão de enumerar “algumas coisas” realizadas durante o tem que presidiu a FCF.

“Deixamos dois centros de estágios, um na Praia e outro no Mindelo, campos relvados em São Vicente, no estádio da Várzea e na Brava, e dois autocarros. No campo desportivo, conseguimos duas presenças na CAN e a conquista de uma Taça Amílcar Cabral e uma medalha de ouro nos Jogos da Lusofonia”, enumera.

Fala também de um projecto de um centro de estágios na ilha do Sal cujo financiamento “estava garantido” e “deixamos 200 mil dólares para a construção de uma infra-estrutura no novo assentamento em Chã das Caldeiras”. Mário Semedo destaca ainda a presença de Cabo Verde numa comissão “prestigiada” da FIFA ligada ao desenvolvimento do Futebol em África e realça a 27ª posição no ranking da FIFA e o terceiro em África alcançados em Fevereiro de 2014, neste momento em quarto.

“Mas somos os primeiros a aceitar que também falhámos e que também errámos, porque, se fosse hoje, não cometeríamos alguns erros cometidos no passado”, admite.

Prémios da discórdia
Os prémios de jogos é um dos pontos que neste momento divide o antigo presidente da FCF, Mário Semedo, e o seu sucessor Victor Osório. Este, na conferência de imprensa que deu na semana passada para reagir ao pedido de demissão de Rui Águas, revelou que o cachet de 50 mil Euros, que Cabo Verde deveria receber referente ao jogo particular com Portugal, foi direcionado para o pagamento do salário do seleccionador nacional. Semedo ouviu e não gostou.

Mais do que isso, e para comprovar as suas palavras, apresentou ao A NAÇÃO um extrato a desmentir Victor Osório, dizendo que “não é de todo verdade” o que disse o actual presidente da FCF. “Uma primeira tranche do prize money (cachet), muito mais de 50 por cento, foi paga pela FPF e o dinheiro entrou na FCF a 20 de Fevereiro de 2015 e tenho comigo o comprovativo. Mas também confirmo que uma outra parte terá sido aplicada no pagamento do salário de Rui Águas”, esclarece.

Sobre comentários nas redes sociais que insinuam que o montante a ser disponibilizado para acudir os deslocado de Chã das Caldeiras teria sido canalizado para os salários de Rui Águas, o ex-presidente da FCF diz que tais afirmações não passam de especulações sem fundamento.

“De acordo com as informações de que disponho, o dinheiro encontra-se na FPF e ainda não foi transferido porque a federação portuguesa aguarda a indicação da conta da instituição do Fogo para a qual deve ser depositada o respectivo montante”, esclarece.

Victor Osório disse também que herdou da anterior direcção da FCF o compromisso de distribuir cerca de 75 mil contos de prémios de jogo aos atletas e à equipa técnica dos Tubarões Azuis, facto também desmentido por Mário Semedo.

“Quando entrámos numa prova, no âmbito daquilo que chamamos de política de incentivo financeiro, nós anunciamos o que normalmente se chama de prémios de jogos e de qualificação. Para a CAN 2015, negociámos prémios de jogo e de qualificação, com montantes que consideramos ser razoáveis, tendo em conta a experiência de outros países, nomeadamente os da nossa sub-região, porque as alegrias que os Tubarões Azuis nos têm dado são graças aos jogadores e às equipas técnicas”, explica.

Em relação à qualificação e participação na última CAN, Mário Semedo diz que alertou os jogadores que não havia dinheiro para pagar os prémios de imediato e que tal seria feito quando a Confederação Africana de Futebol disponibilizasse o montante que Cabo Verde tinha direito pela sua participação na prova.

“E nós fixamos o montante dos prémios de acordo com a previsibilidade do montante que iriamos receber da CAF. Tanto é que os prémios de jogo, salvo um outro caso por falta de informações sobre o números das contas, foram todos pagos antes da minha saída. E os prémios de qualificação que também poderiam ser pagos antes da nossa saída, foram protelados, por causa das eleições na FCF, que aconteceram em Abril de 2015”.

Dinheiro da CAF

Mário Semedo faz saber que, antes de sair da FCF, recebeu da Confederação Africana de Futebol (CAF) a confirmação de que,logo a seguir às eleições na FCF, um montante superior a 50 mil contos seria depositado numa das contas da Federaçao Cabo-verdiana de Futebol, dinheiro esse correspondente à participação de Cabo Verde na CAN.

“Entretanto, avisámos o novo presidente que o mesmo se destinava a prémios de qualificação e de participação para jogadores e equipa técnica”, esclarece. “Nas nossas contas, todo o prémio de qualificação seria suportado com o dinheiro que a CAF enviou”, sublinha Semedo, realçando que ficava uma pequena parte por pagar, mas que era algo que poderia ser resolvido junto dos patrocinadores.

Perguntado sobre a “herança” que a anterior direcção deixou nas contas da FCF, sem avançar números, Mário Semedo disse: “Deixámos uma tesouraria muito saudável. Tenho comigo os extractos, tanto da Caixa Económica, como do BCA, que provam que deixámos uma situação financeira muito saudável, isto sem contar com o montante que viria da CAF e com a verba correspondente ao contrato-programa firmado com a Direcção Geral dos Desportos”.

Entretanto, na referida conferência de imprensa, Victor Osório disse que, para além do caso Rui Águas, encontrou outras “situações complicadas” na federação. Perguntado sobre que “situações complicadas” estaria a referir o actual presidente da FCF, Mário Semedo desafia o seu sucessor a esclarecer o que quer dizer com “dossiês complicados” herdados da anterior direcção da federação.

“Não sei qual é o conceito, nesse caso, de complicado, mas acho estranho e é de se lamentar que uma direção, passados nove meses, venha dizer que recebeu dossiês complicados sem ao menos se dirigir aos membros da anterior direcção ou ao anterior presidente, tendo em conta até a relação que sempre tive com o actual presidente, para pedir esclarecimento. É muito estranho!”

Fonte: anação