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Texto de Luís Nobre Leite
Entre Agosto de 2007, na euforia da prata, com sabor a ouro, conquistada pelos “bravos guerreiros” no Afrobasket realizado na capital angolana, e Agosto de 2009, na ressaca da grande desilusão que foi o 13º lugar, atrevi-me a publicar três artigos sobre o basquetebol cabo-verdiano que, com forte pendor crítico à gestão da modalidade por parte da Federação Cabo-verdiana de Basquetebol (FCB), foram mal interpretados por alguns dirigentes federativos.
Desde então, por razões várias e distintas, fui-me desligando dos meandros do basquetebol, mas sem nunca perder a paixão pela modalidade, a ponto de, na época desportiva em curso (2011/12), ter regresso como atleta (?!), após 6 anos devotados ao dirigismo e à minha outra grande paixão: PRÉDIO – Associação Desportiva Recreativa e Cultural, do bairro da Achada de Santo António (ASA), com mais de 30 anos dedicados ao desporto e ao associativismo em Cabo Verde.
Infelizmente, este regresso tem sido marcado por sentimentos contrários, face ao estado actual de retrocesso da modalidade, pelo menos na capital do País, daí ter decidido, contrariamente ao que seria expectável e, novamente, através de palavras escritas, dar voz ao sentimento de angústia que muitos amantes do basket estão a sentir, neste momento, principalmente aqueles que dedicaram anos e anos a esta causa!
Efectivamente, com mais este texto – muito mais do que a preocupação em perspectivar a modalidade “Para além da(s) festa(s) do Afrobasket”, ou de insurgir-me, com contundência, ao desempenho da FCB, conforme feito em “O reverso do sonho olímpico” – pretendo, apenas e tão-somente, partilhar e fazer ecoar um grito de alerta para a necessidade imperiosa de uma mudança profunda na modalidade, na linha do que já havia tentado fazer em “A realidade e o futuro”, o último artigo da troika sobre o Basquetebol Cabo-verdiano.
Então, havia escrito que “o futuro do basquetebol nacional depende da capacidade que se tiver de analisar, critica e construtivamente, a realidade da modalidade nos dias de hoje e, tão ou mais importante do que isso, de se projectar um Plano a médio e longo prazos que, alicerçado numa visão estratégica, seja capaz de congregar vontades e interesses, por um lado, e não seja fracturante na sua concepção e implementação, por outro”, o que volvidos quase 3 anos, continua cada vez mais actual.
Desde logo, porque é notório e crescente o divórcio entre a hierarquia máxima da modalidade e os dirigentes das principais associações regionais, e respectivos clubes, não obstante os primeiros terem merecido a confiança destas mesmas associações (?!), à excepção da de Santiago Sul, para um novo mandato de 4 anos, na Assembleia-geral da Federação realizada no passado Verão, na capital do País, por ocasião do Campeonato Nacional.
Uma Assembleia-geral marcada por um silêncio sepulcral, na sua convocação e nas suas conclusões – não saiu uma única notícia a respeito, em toda a Imprensa, pelo menos que eu (e muitos outros amantes da modalidade) tivesse dado conta – na qual ter-se-á perdido mais uma oportunidade para se analisar e discutir o estado actual do basquetebol cabo-verdiano, considerando as suas fragilidades/limitações de natureza organizacional e os seus problemas estruturais, muitos dos quais afecta a generalidade do desporto nacional.
Tendo sido reconduzido a equipa que dirigiu a modalidade nos últimos 4/6 anos, com resultados extraordinários a nível internacional, principalmente fruto do desempenho da nossa selecção sénior masculino – muito dificilmente serão repetidos, num horizonte próximo – em contra-ciclo com o desenvolvimento do basquetebol a nível nacional, mais do que o balanço que terá (deveria) sido feito, importava conhecer-se a visão estratégica e as grandes linhas orientadoras com que os dirigentes reeleitos pretendem dar a volta ao estado letárgico do basquetebol nacional, pelo menos, em relação aos seguintes aspectos:
- Modelo organizacional/institucional vigente, caracterizado por uma completa desarticulação entre as associações regionais (na maioria dos casos inexistentes, do ponto de vista legal) e a Federação que, apesar de tudo, melhor organizada e mais funcional, não consegue ter uma dimensão/influência de âmbito verdadeiramente nacional;
- Quadro competitivo actual, com campeonatos regionais cada vez mais fracos e desorganizados, que reflectem negativamente na competitividade dos Nacionais e na base de recrutamento para as selecções;
- Definição de prioridades claras, consensuais e ponderadas na utilização dos recursos financeiros, cada vez mais escassos, promovendo um maior equilíbrio entre a participação das nossas selecções em provas internacionais, sem os problemas recorrentes de planificação, e o desenvolvimento do basquetebol a nível interno;
- Aposta clara e inequívoca na formação, potenciando as condições naturais que parecem existir para a produção de bons e exímios basquetebolistas, numa lógica de complementaridade com o desporto escolar, principalmente no aproveitamento dos recursos humanos (professores e técnicos de educação física) e nas infra-estruturas… neste capítulo, impõe-se uma mudança profunda nos critérios (eleitoralistas e políticos) e nos modelos arquitectónicos de construção (placas desportivas) e gestão;
Poderia continuar a inventariar outros aspectos, mas correria o risco de repetição, em matéria que não é novidade para ninguém, pelo contrário, é conhecido de todos!
Tão pouco me parece relevante vir com as frases feitas (e palavras já escritas) da necessidade de um “trabalho de casa longe dos holofotes, no sentido de uma planificação mais profissional e metódica, calendarizada no tempo e no espaço e numa perspectiva mais integradora e reveladora, para a sociedade civil, de que existe uma verdadeira política desportiva”, quando este mesmo problema, lamentavelmente, tem as suas origens mais acima, reflectindo a ausência de uma política governamental, coerente e consistente, para o desporto cabo-verdiano… tema que será, seguramente, retomado em outro apontamento.
Por hora, já me dava por muito satisfeito que todos quantos dedicaram parte das suas vidas a esta modalidade, abandonassem o comodismo do silêncio e a resignação auto-imposta para, num último esforço e comprometimento com este amor/causa, predispuséssemos a ser parte das soluções… nem que seja como salvação das nossas almas (SOS) e da do basquetebol.
Naturalmente, este repto teria que ser abraçado pelos dirigentes federativos, a quem lhes desafiava, igualmente, a promoverem um amplo e descomplexado debate sobre o presente e o futuro do basquetebol cabo-verdiano, num espírito de comunhão, respeito e reconhecimento pelo trabalho já feito, mas também de humildade e fair-play para conviver com as críticas (construtivas) e, delas, tirar contributos positivos, afinal, todos preconizamos os mesmos objectivos, apesar das opções diferentes para lá chegar.
Para terminar, uma palavra de reconhecimento ao trabalho, meritório e abnegado, que vem sendo feito pela actual Associação Regional de Basquetebol de Santiago Sul, num momento particularmente complicado para (alguns) os clubes que lhe estão associados.
LUÍS NOBRE LEITE | www.palavradolho.blogspot.com
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