FIFA responde a ameaça de boicote da UEFA: "Ninguém está a vender o futebol"

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Um dia depois de a UEFA e a CONCACAF terem rejeitado a proposta da FIFA com vista a um novo modelo de comercialização do Campeonato do Mundo, através da criação de uma sociedade comercial - FIFA Forward Enterprise (FFE) -, que abriria portas a investidores privados, o organismo que tutela o futebol mundial reagiu.



Através de comunicado, a FIFA acusou "notícias incorretas da comunicação social" de terem interrompido o seu processo de consulta sobre esta proposta, respondendo ainda a uma crítica recente da UEFA, que a acusou de estar a tentar vender algo que não lhe pertence.

"Respeitamos o feedback e as preocupações expressas publicamente e reafirmamos o nosso compromisso com uma consulta aberta e democrática.⁠ O nosso processo de consulta planeado foi interrompido por notícias incorretas na comunicação social. Vamos continuar com este processo de consulta para garantir que cada Associação Membro (AM) possa expressar o seu voto com base em factos. A FFE foi proposta unicamente para garantir que todas as Associações Membro da FIFA tenham a oportunidade de assumir um papel significativo na exploração comercial do futebol nos seus respetivos países, sem que isso comprometa o espírito ou a governação da FIFA ou do próprio futebol. Ninguém está a vender o futebol. Isso é algo que a FIFA nunca consideraria. Todos têm o direito de expressar a sua oposição e de solicitar esclarecimentos, mas nenhuma entidade pode pretender representar as 211 federações mundiais. Cada federação deve ter a oportunidade de rever a proposta e participar na construção do seu próprio futuro. Estes são os princípios democráticos da FIFA", pode ler-se.

Recorde-se que as 55 Associações-Membro da UEFA, incluindo a Federação Portuguesa de Futebol, aprovaram na quinta-feira de forma unânime, numa reunião de emergência, um boicote ao Mundial caso a polémica proposta de Gianni Infantino vá adiante, com a CONCACAF a também a ter rejeitado em comunicado.

"Como resultado da discussão de hoje, nenhuma associação da UEFA participará em qualquer competição da FIFA enquanto essas propostas permanecerem em vigor, a menos que sejam abandonadas por completo e que sejam dadas garantias vinculativas de que a FIFA jamais abrirá a sua governança ou as competições à propriedade privada", pode ler-se em comunicado publicado no sítio oficial da confederação europeia na Internet.

"A posição da Europa é clara. Jamais daremos legitimidade a esse modelo. Ninguém tem autoridade moral para vender o que detém para a próxima geração. Ninguém deve ter dúvidas: a UEFA e as suas federações nacionais vão opor-se a esses planos com absoluta determinação", referiu.

Na terça-feira, o organismo regulador do futebol mundial revelou a intenção de angariar até 4,2 mil milhões de dólares com a venda de participações dos campeonatos do mundo a privados, mas a UEFA criticou esse plano por duas vezes, falando numa "oposição significativa e crescente".

Os Clubes Europeus de Futebol (EFC), a Associação de Ligas Europeias (EL) e algumas federações também manifestaram preocupações e críticas ao projeto da FIFA, a exemplo do primeiro-ministro britânico, Andy Burnham, e do comissário europeu Glenn Micaleff, entre outros políticos.

"A FIFA sofreu uma transformação na última década, com amplas reformas de governação e uma grande expansão do desenvolvimento e das competições. O reforço do lado comercial do futebol é o próximo passo natural nesta evolução. Por isso, acreditamos que a proposta desbloqueará o potencial da modalidade em todos os cantos do mundo", expôs Infantino.

O organismo quer aumentar nos próximos anos o financiamento destinado ao desenvolvimento do futebol para mais de 10 mil milhões de dólares, através de uma nova estrutura comercial, cuja criação depende da aprovação da maioria do Conselho e das 211 federações-membro.

A proposta passa pela criação da FIFA Forward Enterprise (FFE), integralmente detida pela FIFA e que reunirá os direitos comerciais do organismo, vendendo participações minoritárias a investidores privados, que não vão ter papel operacional na subsidiária, avaliada inicialmente em 20 mil milhões de dólares.

"Assim, vamos desbloquear um valor comercial até então inexplorado. Uma parcela muito pequena do crescente valor comercial do futebol chega às partes que mais precisam. Capturá-lo exige perícia e conhecimento adicionais", observou Infantino, reiterando as promessas feitas pela FIFA.

A operação permitirá reforçar o programa FIFA Forward e vai aumentar o financiamento de desenvolvimento por federação dos atuais oito para 20 milhões de dólares no ciclo 2027-2030, de 22 milhões entre 2031 e 2034 e para 24 milhões de 2035 a 2038.

"É uma oportunidade de ouro para impulsionar o desenvolvimento do futebol a nível global. Mas, mais uma vez, é apenas uma oferta, não uma obrigação. Temos o dever de estar aqui para discutir o assunto com todos", assumiu Infantino, garantindo aos adeptos que o futebol "não vai mudar".

A FIFA assegura que vai manter o controlo exclusivo sobre a governação do futebol, as competições, o calendário internacional e todas as decisões regulamentares e desportivas, num plano revelado depois do Mundial2026, que foi coorganizado por Estados Unidos, México e Canadá e atingiu recordes de público e audiência na história do principal torneio de seleções.

"Os benefícios dos investimentos contínuos já são visíveis: uma década de apoio através do FIFA Forward ajudou países como Cabo Verde, Curaçau, Jordânia e Uzbequistão a chegar ao Campeonato do Mundo pela primeira vez. Queremos ajudar a criar os próximos "Cabo Verdes"", notou Infantino.


O jornal britânico The Times avançou que o presidente da FIFA deu um prazo de 53 dias às 211 federações-membro, entre as quais a Federação Portuguesa de Futebol (FPF), para aceitarem o modelo, a troco de alguns milhões de euros.

Para operacionalizar o projeto, a FIFA está a trabalhar com o banco J.P. Morgan, surgindo entre os potenciais investidores a Thrive Capital, fundada por Joshua Kushner, irmão de Jared Kushner, que é genro do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Lusa

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