Futebol Feminino em Cabo Verde: Entre o Brilho da Seleção e a Estagnação Estrutural



Artigo de Opinião por Luxa Estrela

Nos últimos anos, o futebol feminino em Cabo Verde tem conquistado visibilidade, especialmente graças ao desempenho da seleção nacional sénior. Em 2025, a equipa deu um passo importante ao avançar para a segunda fase das eliminatórias do Campeonato Africano das Nações (CAN), após uma vitória expressiva frente à Guiné Conacri. Este feito, sem dúvida, merece reconhecimento. No entanto, por trás desse brilho pontual, esconde-se uma realidade preocupante: a fragilidade estrutural da modalidade no país.



Atualmente, apenas quatro regiões desportivas — Sal, Santiago Norte, Santiago Sul e São Vicente — participam no Campeonato Nacional de Futebol Feminino. Esta limitação territorial não é fruto da falta de talento ou interesse, mas sim da incapacidade da Federação Cabo-verdiana de Futebol (FCF) em criar condições equitativas para a inclusão de todas as ilhas. A ausência de uma estratégia eficaz de desenvolvimento e integração regional tem deixado várias atletas e clubes à margem da competição nacional.

Mais preocupante ainda é o padrão repetitivo na escolha das sedes dos campeonatos. Nos últimos anos, duas ilhas têm sido sistematicamente beneficiadas, com a justificação recorrente de “questões logísticas”. Esta explicação, embora válida em certos contextos, torna-se frágil quando usada como argumento permanente. A centralização das competições não só compromete a representatividade do campeonato, como também mina a confiança das demais regiões no processo organizativo da FCF.

Além disso, o formato da competição impõe um esforço físico extremo às atletas. Durante uma única semana, elas são obrigadas a competir sob o sol abrasador, muitas vezes disputando três jogos em apenas sete dias, sem qualquer consideração pelo desgaste físico e mental. Não há tempo adequado para recuperação, nem condições ideais para rendimento. Para a FCF, o mais importante parece ser cumprir a agenda e apresentar relatórios à FIFA, mesmo que isso aconteça à custa da saúde e do bem-estar das jogadoras.

A situação agrava-se ainda mais quando se observa a ineficácia das entidades regionais e nacionais, que, aliada a escolhas muitas vezes duvidosas em benefício de certas equipas, contribui para o enfraquecimento da modalidade. No Sal, por exemplo, o futebol feminino tem perdido força, e a nível nacional, o cenário não é diferente. Se nada for feito, o futuro do futebol feminino em Cabo Verde corre o risco de se resumir a uma única região desportiva — e para os bons entendedores, meia palavra basta.

Neste cenário, a seleção nacional acaba por funcionar como uma espécie de “escapatória institucional”. O seu sucesso serve de vitrine para encobrir a estagnação do futebol feminino a nível interno. Enquanto os holofotes se voltam para os jogos internacionais, a base — onde se forma o verdadeiro futuro da modalidade — continua negligenciada.

É urgente que a Federação reveja suas prioridades e adote uma abordagem mais inclusiva, humana e transparente. O futebol feminino cabo-verdiano tem potencial, tem talento e tem vontade. O que falta é vontade política e organizacional para transformar esse potencial em progresso real e sustentável.

Luxa Estrela


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